sexta-feira, 11 de julho de 2008

Por vezes pego a barca que sai do continente, a antiga é claro, a que contém ferrugem e é mais lenta, eu adoro mesmo desacelerar.
Sonho em estar na barca em um dia de tempestade, em que raios cortem a noite, e o mar esteja revolto, mas é preciso que somente eu esteja na barca, aliás sonho é sonho e no meu sonho tudo é possível, até mesmo eu estar só na barca.
Por vezes pego a barca que sai do continente, a antiga é claro, prefiro a que tem bancos de madeira do lado de fora, vou de pé por todo o trajeto, olho fixamente para os bancos de madeira, onde visualizo em preto e branco uma linda mulher trajando um daqueles lindos vestidos que só conheço por fotos, um daqueles vestidos que revelam uma beleza, pura e sutil, que remete ao clássico ao austero, ainda que confesse que gosto muito dos biquínis que não combinam com sandálias de propaganda.
Por vezes pego a barca que sai do continente, a antiga é claro, a que solta fumaça escura, embora não polua mais do que o mar cor de óleo petroleiros, que insistem em inundar o berçário com a tal crosta escura que advém das manchas do progresso sem controle.
Por vezes pego a barca que sai do continente, a antiga é claro, e quanto mais me afasto e menos ouço mais eu gosto.
Gosto de não ouvir o choro das mães dos filhos entregues pelo exercito aos marginais sem farda dos morros.
Gosto de não ouvir os estampidos dos tiros de balas perdidas, que não raramente, encontram pais que não verão mais seus filhos, ou filhos que não verão mais seus pais.
Gosto de ver os taxis no elevado, fazendo a viagem final do dia na volta pra casa, para rever seus filhos e esposas, aqueles filhos que a policia despreparada não matou, com medo do medo de ser competente, e assumir o verdadeiro papel de proteger os filhos e esposas e os viajantes que vem e vão do trabalho.
Por vezes pego a barca que sai do continente, a antiga é claro, e quanto mais me afasto eu gosto. Gosto de ouvir o silêncio que só ouço em meio ao barulhento motor da barca.
Gosto do efeito da areia se movendo dentro da água no reverso do motor da barca.
Gosto de subir as escadas e ir lá de cima.
Gosto dos pássaros que me acompanham na esperança de uma sardinha que escape das malhas finas das traineiras de pesca que servem aos bandeijões de um real do mercado de peixes do continente.
Gosto dos pássaros de aço que cruzam o céu e aterrizam em um estreito tão estreito de aterro de terra, que desafia a própria física e o pior é que todo mundo sabe e ninguém diz nada.
Más de que vale a vida mesmo se o que move o mundo é o interesse comercial.
Por vezes pego a barca que sai do continente, a antiga é claro, e quanto mais me afasto eu gosto.

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